As corujas do gênero Megascops tem sido até o momento tratadas como membros do gênero Otus, às vezes como um sub-gênero Megascops.
No entanto, estudos recentes, principalmente de evidência DNA e vocalização, reforçam que elas devem ser tratadas como um gênero independente. (1)
1. Morfologia (2)
Observando essas corujinhas no campo, à noite, iluminando-as a curta distância com uma lanterna forte, é tarefa difícil reconhecer as espécies. O mesmo vale para uma observação de dia.
As diferenças de tamanho são pequenas, as medidas das espécies podem se sobrepor. Apenas os extremos são nítidos: Megascops watsonii da Amazönia é “pequena” e M. sanctaecatarinae do Sul é “grande”, as outras são intermediárias. A comum Megascops choliba pode ter tamanho próximo de M. watsonii ou de M. atricapillus/guatemalae, enquanto Megascops atricapillus tem medidas próximas de M. sanctaecatarinae. Em coleções de museu, M. sanctaecatarinae pode parecer “enorme” ao lado das outras. As diferenças reais do tamanho podem ser bem avaliadas através de medidas comparativas dos pés e bico. Dimorfismo sexual (fêmea maior como em geral nas corujas) é pouco pronunciado em Megascops.
Um diagnóstico importante é a cor da íris. A diferença básica é: íris amarela-clara ou íris pardo-escura. A validade desse caráter também não é absoluta; foram encontrados irmãos de Megascops choliba, um de íris amarela e o outro de íris parda. O mesmo para M. atricapillus. Coletamos (Helmut Sick) no Rio Grande do Sul Megascops sanctaecatarinae com íris parda - a cor típica deste representante é amarela. Duas horas após a morte não é mais possível notar a íris que encolhe. A cor da íris pode estar ligada as respectivas fases da plumagem: íris pardo-escura na fase escura, íris amarela na fase vermelha (J T Marshall).
Ocorre uma tremenda variação no desenho da plumagem que tem que ser preferencialmente ilustrada para demonstrar essa amplitude. Não existem dois indivíduos iguais. Problema adicional, frequente na maioria das corujas e bacuraus é a existência de polimorfismo: plumagem cinzenta ou fase “vermelha” (“fase” no sentido aparência constante do indivíduos). Influi também se a plumagem é fresca ou gasta, dependendo da época de reprodução. Imaturos podem ser ligeiramente diferentes.
Existe a seguinte diferença no padrão das rêmiges: em Megascops choliba os vexilos internos das primárias mostram largas faixas claras enquanto esta parte nas penas de M. atricapillus é quase uniformemente escura. O vexilo interno de M. sanctaecatarinae é quase tão escuro quanto o de M. atricapillus.
É possível que ocorram cruzamentos o que seria esperado devido a proximidade das formas, às vezes tratadas como raças geográficas. Em museus a plumagem torna-se mais pálida.
Todas as tentativas de esclarecer a sistemática do gênero Megascops baseando-se unicamente na plumagem não esclareceram as reais afinidades.
2. Vocalização (1)
As corujas do gênero Megascops vocalizam basicamente dois tipos de sons, “A” e “B”. O primeiro normalmente tem a função de demarcação de território, enquanto o segundo é emitido de uma forma agressiva ou excitada (ex.: display de acasalamento).
A vocalização “A” normalmente apresenta um trinado de duração mais longa ou uma sequência de notas únicas em sucessão, variando-se de espécie para espécie o tom e a velocidade/frequência das notas.
A vocalização “B” é relativamente curta, frequentemente com um ritmo característico. São utilizadas particularmente por casais em dueto, durante a corte (período de reprodução).
(2) A vocalização “A” (canto territorial) dos Megascops brasileiros costuma indicar a identidade específica do indivíduo (existe certa variação geográfica).
Dúvidas podem surgir no caso de atricapillus/guatemalae e no caso de atricapillus/sanctaecatarinae. Influi o tamanho do indivíduo, sendo a voz do maior mais forte e mais baixa. A voz da fêmea (que vocaliza menos) é um pouco mais alta, exceto M. santaecatarinae cuja fêmea tem um gaguejar extraordinário.
Os Megascops cantam em noites quentes com falta absoluta de vento, no sudeste do Brasil se intensificando em Setembro.
3. Distribuição, ecologia (2)
Há a tendência de que várias formas de Megascops se substituam geograficamente. Isto levou ao tratamento de certas espécies como representantes geográficos. Pode se testar geralmente essas conclusões pela vocalização.
Sendo assim o M. guatemalae poderia ser considerado apenas subespecificamente diferente de Megascops atricapillus. Não temos evidências sobre a existência M. atricapillus ao lado de M. santaecatarinae no Rio Grande do Sul.
A corujinha-sapo mede 24 cm de comprimento. Espécie similar à corujinha-do-mato, mas com os penachos maiores e uma distinta área negra na nuca e no alto da cabeça. A cor da íris varia do amarelo ao laranja e marrom. Apresenta uma fase de plumagem escura com olho marrom, outra ruiva e também uma terceira, cinzenta, estas últimas com a íris amarelada.
Vive mais no interior de florestas densas que a corujinha-do-mato, embora, como no caso dessa espécie, ocorra também em bordas de florestas e áreas urbanas densamente florestadas. Dorme durante o dia em cavidades naturais ou na densa vegetação. Responde prontamente ao playback do canto.
Ocorre da Bahia até Santa Catarina, incluindo a região Centro-Oeste (Goiás e Mato Grosso do Sul).
Para a corujinha-do-mato, o seu chamado mais característico é um piar acelerado, ascendente, emitido com grande freqüência no escurecer. Imitado, costuma aproximar-se da fonte ou responde com mais intensidade. Menor do que a coruja-buraqueira, destacam-se em sua silhueta as duas “orelhas” nos lados da cabeça. Os olhos são amarelados destacados na face cinza clara, contornada por negro externamente. Peito cinza com rajados escuros e verticais sobre finas listras transversais. Dorso cinza amarronzado com bolas e manchas escuras. O juvenil sem as “orelhas” e os riscos escuros na plumagem Como em outras corujas, aparece uma variação natural de exemplares adultos com plumagem marrom avermelhada no lugar do cinza. Voa sem criar grandes turbulências, formadoras dos ruídos característicos do rufar de asas. Com isso, aproxima-se da presa em silêncio, tendo-a localizado antes pela visão ou através da audição apurada.
É estritamente noturna e fica quase sempre empoleirada em árvores. É uma das corujas mais comuns em cidades, parques urbanos e fazendas, e também habita capoeiras e beiras de matas secas ou úmidas, mas evita o interior de florestas densas. Seu canto lembra o de um sapo-cururu. Buscam abrigo diurno em buracos em árvores, como aqueles feitos por pica-paus. É nesses buracos que também constrói seus ninhos. Fica escondida durante o dia em ocos de árvores ou de cupinzeiros. Sai no escurecer, podendo ser mais ouvida do que observada.
Está presente em todo o Brasil.
Não há registro dessa espécie no site
A corujinha-de-roraima mede de 20 a 23 cm de comprimento.
Ocorre em matas serranas e nos tepuis da fronteira entre o Brasil, a Venezuela e as Guianas, entre 1000 e 1800m de altitude.
A corujinha-do-sul mede 28 cm de comprimento. Espécie meridional de grande porte, simpátrica com a corujinha-do-mato e com a corujinha-sapo, apresentando como estas; três fases distintas de coloração de plumagem (marrom, cinza e ruiva).
Possui hábitos estritamente noturnos e ocasionalmente crepusculares. Durante o dia, dorme em meio à densa folhagem nas árvores e até mesmo em eucaliptais. Vive em áreas semi-abertas, matas de araucária e capoeiras entre 300 e 1000 m de altitude.
Presente nos estados da região Sul do Brasil.
A corujinha-relógio mede de 23 a 24 cm de comprimento.
Vocaliza um distinto “uoo-uoo-uoo-uoo…” e apresenta hábitos semelhantes aos da corujinha-orelhuda.
Subtitui a corujinha-orelhuda ao sul do Rio Amazonas, do Maranhão ao Amazonas e Rondônia.
A corujinha-orelhuda mede cerca de 22 cm de comprimento e pesa 115 g.
Habita florestas altas e várzeas onde há palmeiras. É exclusivamente de hábitos noturnos, vivendo freqüentemente aos pares. Durante o dia descansa em buracos ou galhos de árvores à média altura. Seu canto consiste em uma sequência de sons “bubububububu…”, emitidos principalmente no crepúsculo.
Amazônia brasileira e da Venezuela à Bolívia.